De acordo com algumas religiões, a alma de uma pessoa não descansa até ter completado sua missão na Terra. Se esse for o caso, foi só em meados de 2002 que Milton Soares de Castro finalmente pode descansar em paz. Morto pelas Forças Armadas durante o período da Ditadura Militar, o seu corpo nunca havia sido encontrado – pelo menos não até a jornalista mineira Daniela Arbex resolver se aprofundar no caso. Desse incrível trabalho de investigação, saiu o livro Cova 312, que chegou às livrarias em maio pela Geração Editorial.

A avassaladora força de vontade de Daniela Arbex (1)

Em entrevista para o Coisas de Jornalista, Daniela Arbex contou que sempre quis escrever uma matéria sobre a ditadura, já que só conhecia esse período através de livros. Durante uma conversa com o deputado federal Nilmário Miranda, que já ocupou o cargo de presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o político mencionou um militante do Rio Grande do Sul, morto dentro da Penitenciário de Linhares e cujo corpo nunca havia sido localizado. A matéria que Daniela sempre quis escrever começou a ganhar forma.

Começou, então, a procurar pelo corpo do guerrilheiro. Seguindo uma intuição que só se conquista com anos de trabalho, Daniela achou que Milton estaria enterrado perto de onde ele havia sido morto. A jornalista foi até o Cemitério Municipal de Juiz de Fora, procurou a administração e pediu pelo livro de óbitos do ano de 1967. Com a ajuda de um funcionário, conseguiu achar o nome do militante político na lista e constatou que ele estava enterrado na anônima cova 312, que dá nome ao livro. A partir dessa descoberta incrível, Daniela começou a reunir provas do caso até que, em 2014, encontrou fotos da necropsia que permitiu provar que Milton havia sido assassinado, ao contrário da versão oficial que dizia que a causa da morte havia sido suicídio. Um ano depois, o livro que reconstitui o calvário desse jovem, de seus companheiros e de sua família chega às livrarias para surpreender os leitores e trazer para a luz mais um capítulo que Ditadura Militar tentou esconder. A Geração Editorial disponibilizou online o primeiro capítulo da obra, que pode ser lido aqui.

Para quem não sabe, não é a primeira vez que Daniela Arbex se envolve em uma história complexa assim. Em 2013, a jornalista lançou o seu primeiro livro, Holocausto Brasileiro, que narra o sofrimento de pacientes em um manicômio na cidade de Barbacena, Minas Gerais, onde ocorreu um genocídio de pelo menos 60 mil pessoas entre 1903 e 1980. Mesmo sendo um episódio recente da história brasileira, poucas pessoas sabem que isso aconteceu. A obra narra os horrores que se passaram no local, conhecido como Colônia por ter sido palco de atos que se assemelham aos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

É claro que não é fácil. Durante o ano que usou para apurar informações sobre o manicômio e quem passou por lá, Daniela viajou em todos os finais de semana. Na fase da escrita, saía do Tribuna de Minas, jornal que trabalha, às 20h, chegava em casa, colocava o filho para dormir e depois escrevia de meia noite às cinco da manhã – rotina que se repetiu por cinco meses. Para Cova 312, pediu uma licença de sete meses, porque, além do livro, ia filmar o documentário de Holocausto Brasileiro para a HBO. Essa transição de papel para as telas está sendo uma experiência incrível para a jornalista, que garantiu que os leitores vão ser surpreendidos: “Tem novos personagens e histórias muito impressionantes”. O filme será veiculado em mais de 20 países e atenderá a um grande sonho da jornalista, que é ter essa história conhecida pelo maior número de pessoas possível.

A avassaladora força de vontade de Daniela Arbex (2)

Para chegar onde chegou, Daniela teve que enfrentar muitos desafios e obstáculos. Felizmente, recebeu orientações maravilhosas que a ajudaram a atravessar as inevitáveis dificuldades. O que a ajudou muito a controlar seus medos é ter a certeza de que a força de vontade é avassaladora. Para quem deseja seguir esse caminho, a jornalista dá uma dica que considera indispensável: “Aprenda a gastar sola de sapato, se interese pelo próximo e coloque o jornalismo a serviço da sociedade. Pode parecer óbvio, mas umd os desafios é fazer valer o princípio do interesse coletivo e não o de alguns grupos”.