Daniela Arbex lançou seu livro Cova 312 em maio de 2014. Na época, ela concedeu uma entrevista para o Coisas de Jornalista a respeito da série de reportagens que inspirou o livro. O personagem central é Milton Soares de Castro, mas poderia ser de qualquer um dos milhares de desaparecidos durante o período da Ditadura Militar no Brasil. Seu corpo só foi encontrado graças ao trabalho de investigação da jornalista, mas nem mesmo sua incrível apuração conseguiu explicar como ele morreu.

Naquele ano, foi instaurada em Minas Gerais uma Comissão Estadual de Indenização às Vítimas de Tortura, com o objetivo de investigar os casos daqueles que foram presos políticos durante a Ditadura Militar. Os que foram torturados durante o período receberiam a indenização e, para os casos de morte, o pagamento seria passado às famílias das vítimas. Uma entrevista com essas pessoas daria uma ótima reportagem, ainda mais porque Daniela sempre quis fazer uma matéria sobre a Ditadura. Ela entrou em contato com o deputado Nilmário Miranda, que era o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Vale destacar que Nilmário foi um dos autores do livro “Dos filhos deste solo”, que reúne dados e informações sobre as reais circunstâncias das mortes e desaparecimentos de cerca de 400 pessoas durante o regime militar. Foi Nilmário o autor da lei que instituiu a Comissão de Direitos Humanos na Câmara dos Deputado  e, durante o governo Lula, foi ministro da Secretaria de Direitos Humanos.

Depois de muita pesquisa e conversas com Nilmário, Daniela chegou até a história dos presos da Penitenciária de Linhares. No local, havia o registro de apenas uma morte, o do militante Milton Soares de Castro, da guerrilha do Caparaó. Segundo o exército, ele havia se suicidado por enforcamento dentro da sua cela e seu corpo tinha desaparecido.chegou até a história dos presos da Penitenciária de Linhares. No local, havia o registro de apenas uma morte, o do militante Milton Soares de Castro, da guerrilha do Caparaó. Segundo o exército, ele havia se suicidado por enforcamento dentro da sua cela e seu corpo tinha desaparecido. A jornalista mineira resolveu ir atrás dessa história, afinal, descobrir o que tinha acontecido com o militante era desvendar mais um mistério que cerca esse período até hoje.

Foram quase doze anos entre a primeira matéria publicada sobre o assunto e o lançamento do livro. Nesse tempo, Daniela conseguiu o que muitos consideraram impossível: achar o corpo de Milton, que fora enterrado como indigente no Cemitério Municipal de Juiz de Fora, bem longe da sua amada terra natal e de sua família. O livro-reportagem aborda bem a dificuldade de pesquisar informações sobre o que aconteceu nesse período. Mesmo décadas depois, o Exército tenta impedir que jornalistas e familiares dos presos políticos tenham detalhes do que aconteceu com aqueles que foram detidos. Por todo o Brasil, centenas de famílias ainda vivem com o fantasma da incerteza.

Mesmo com esse incrível trabalho de apuração e investigação, nem toda a verdade foi descoberta. Ainda não se sabe como Milton morreu; seus colegas, que também estavam presos na Penitenciário de Linhares, tem dúvidas se ele chegou de uma sessão de tortura já morto ou se ele faleceu durante a madrugada. Tudo o que eles sabem é que, na parte da manhã, guardas entraram na cela e levaram seu corpo embora. Foi a última vez que Milton foi visto. Sua mãe, Dona Universina, morreu sem ter a chance de enterrar o próprio filho. Por isso esse livro é tão importante: ele mostra como o jornalismo pode ser uma força que rompe barreiras do tempo e do poder.

O primeiro capítulo está disponível para leitura. Mesmo falando de uma época específico, as reflexões que o livro passa são atemporais. Em uma época em que caixas de som e faixas pedem a volta da ditadura militar como reposta ao caos político que se encontra o país, um dos trechos finais do livro ajuda a repensar as ideias a atitudes que estão sendo tomadas:

Pior que isso: reeditar nas ruas do país marchas pela ordem clamando o retorno da ditadura é desconhecer os anos de sombra que envolveram o Brasil ou aceita que a força supere o diálogo e o esforço histórico dos movimentos populares na busca por caminhos de paz.