Estádio cheio, uma multidão atraída por um único motivo: futebol. Um jogo eletrizante, com muito choro, comemoração, vaias e.. Paixão. Essa é a palavra que move milhares de torcedores, que faz relacionamentos terminarem e bares lotarem. Essa é a palavra que muitos usariam para descrever o que sentem pelo futebol.

Mas não para a alta cúpula da Fifa e outras entidades. Para elas, o futebol não tem nada a ver com paixão, mas sim com dinheiro – e muitas cifras são negociadas durante os 90 minutos da partida. Se o que move os torcedores é a bola entrando no gol, o combustível dos dirigentes vem em dólar, euro e várias outras moedas. Dinheiro, esse, fruto de esquemas de corrupção que até então eram desconhecidos pelo grande público.

Na semana passada, o contra-ataque: o Departamento de Justiça dos Estados Unidos abriu um inquérito para apurar suborno, fraude, lavagem de dinheiro, obstrução de Justiça e outros crimes cometidos pela Fifa. A investigação aponta que milhões de dólares foram movimentados durante duas gestões de dirigentes e sete pessoas foram presas em um hotel de luxo em Zurique, na Suíça. Entre os acusados, está o brasileiro José Maria Marin, que teria recebido cerca de R$ 20 milhões em propina.

O escândalo só veio à público agora, mas os jornalistas Luiz Carlos Azenha, Amaury Ribeiro Jr., Leandro Cipoloni e Tony Chastinet já investigavam o esquema de corrupção na Fifa há muito tempo e lançaram o livro para contar o que descobriram. O Lado Sujo do Futebol – A Trama de Propinas, Negociatas e Traições que Abalou o Esporte Mais Popular do Mundo, da Editora Planeta, teve como ponto de partida uma série de reportagens da TV Record sobre irregularidades na Confederação Brasileira de Futebol, a CBF. Os jornalistas desvendaram uma trama que tinha como alicerce o então presidente da Fifa, João Havelante. A descoberta do esquema ajudou a acelerar a renúncia do ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que é ex-genro de Havelange.

Um livro indispensável para quem quer conhecer como funciona os bastidores do futebol – com um pequeno aviso: as revelações podem fazer os leitores perderem um pouco da paixão pelo esporte, já que o negócio é feio. Bem, bem feio. Nem mesmo a contratação de Neymar pelo grande Barcelona foge do esquema de corrupção: os jornalistas explicam a conversa que o craque teve, antes mesmo do clube espanhol tornar público seu interesse pelo então jogador do Santos.

O trabalho de apuração dos autores é incrível, os leitores tem como ver muitos dos documentos que eles utilizaram para reconstruir o caminho sujo do dinheiro. E a investigação foi além das fronteiras entre países: eles foram até os Estados Unidos, ver de perto onde aconteceu o acidente que matou Adriane de Almeida Cabete, 23 anos, apontada como affair de Ricardo Teixeira. Até hoje existem dúvidas se foi mesmo um acidente ou se o carro foi sabotado, já que, na época, Teixeira era casado com Lúcia Havelange, filha do todo-poderoso da Fifa. Dentro do carro também estava Lorice Sad Abuzaid, que era empregada de Wagner José Abrahão, parceiro de negócios de Ricardo Teixeira e beneficiário de contratos suspeitos com a CBF. Desde o ano do acidente, 1995, a conta dos três (Abuzaid, Teixeira e Abrahão), só aumentarem – e devem ter atingido seu ápice na Copa do Mundo do Brasil, em 2014.

Um livro eletrizante, a começar pelo prefácio de Romário, que desde que começou sua vida política aponta que o jogo é sujo fora dos gramados. Quem se interessar, pode ler o primeiro capítulo no blog do jornalista Juca Kfouri. A obra foi lançada antes do Mundial no Brasil – considerado um dos campeonatos de maior sucesso de público e audiência. Mas se país do futebol exporta craques para todo o mundo, também tem uma fábrica de dirigentes corruptos, que fazem da paixão mundial um negócio extremamente lucrativo.

E quem paga essa conta?