Ignorância é benção, mas o conhecimento é libertação. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, isso fica mais explícito quando o leitor acompanha a história dessa distopia (circunstância hipotética, em que se vive situações desesperadoras, com excesso de opressão ou de perda). Em uma realidade não muito diferente da atual, Guy Montag, o protagonista do livro, trabalha como bombeiro, a mesma profissão que seu pai e avô escolheram. No romance, os bombeiros são chamados para incendiar livros ao invés de conter incêndios. A nova função desses profissionais se deu graças à tecnologia que permitia ter habitações a prova de fogo e para conter qualquer tipo de pensamento fora do padrão.

Com televisores que interagem com os espectadores, fingindo ser seus parentes, as pessoas seguem suas vidas alienadas, sem dar espaço para qualquer tipo de pensamento, senão os que são induzidos nos debates teatrais realizados com as pessoas na televisão. Assuntos relacionados com filosofia e política são tabus nessa sociedade. Pensar além do que é pedido, é pecado. E que arma pior que os livros para instigar a imaginação e o pensamento?

Para ajudar a encontrar os livros escondidos e conter os pensamentos revolucionários, os bombeiros contam com a ajuda das denúncias anônimas da comunidade e dos Sabujos, cães mecânicos que farejam as páginas impressas com histórias diversas. A sociedade vive um constante espetáculo midiático, em que pessoas são constantemente atropeladas por veículos ultravelozes, professores são calados e livros são proibidos.

Fahrenheit 451 (1)

No seu caminho para o metrô, o caminho de Guy cruza com o de Clarisse McClellan, sua vizinha de 16 anos, que o instiga a questionar o que sua noção de felicidade, seus ideias, estilo de vida. Afinal, qual é o sentido de tudo o que ele faz e pensa? A família dos McClellan é a exemplificação do que é considerado como escória nessa sociedade. O bombeiro e a adolescente criam um laço, que é desfeito quando a garota desaparece, causando a revolta do protagonista.

A história é repleta de personagem que completam o cenário ideológico desta distopia. A esposa de Guy, Mildred Montag, é superficial e tem sede por consumir apetrechos para a sua casa, como o seu quarto televisor para por na sala e interagir com mais “parentes”. A personagem é importante para mostrar como a sociedade em geral se comporta, de forma rasa e superficial, como é possível notar quando ela tem uma overdose de remédios e recebe atendimento médico em casa, em que o descaso com a humanidade também é explícito.

O Capitão Beatty, chefe do corpo de bombeiros, é o exemplo da parcela da população que contém o poder. Beatty surpreende o protagonista ao mostrar seu grande conhecimento por literatura. Em uma noite de jogos no Corpo de Bombeiros, o Capitão diz que às vezes os livros despertam a curiosidade dos bombeiros, mas, se o livro for devolvido dentro de 24 horas, tudo ficava bem.

Fahrenheit 451 (2)

Por causa da falta de hábito de leitura, Guy tem uma péssima memória para entender e decorar o conteúdo dos livros que ele rouba. Para ajudar nisso, ele conta com a ajuda de Faber, um professor de inglês que não leciona há 40 anos. Juntos, os dois começam uma pequena revolução para fazer jus ao desaparecimento da vizinha dos Montag.

O livro é repleto de conflitos e é capaz de encher o leitor de esperanças, revoltas e questionamentos. Apesar de ser uma obra ficcional, Fahrenheit 451 é capaz de trazer várias reflexões aos seus espectadores. A obra de Ray Bradbury faz uma crítica à sociedade crescente e disfuncional e, apesar de ser uma obra de 1953, continua atual.

É possível tirar várias interpretações dos elementos do livro, como a queima de livros, as ações da classe dominante (representada pelo Capitão Beatty), e a censura. De acordo com o autor, Fahrenheit 451 não trata de censura, mas de como a televisão destrói o interesse pela leitura.

A última edição do livro, publicada em 2012, conta ainda com um anexo sobre como Bradbury fez o livro. O livro foi escrito nos nos porões da biblioteca Powell, na Universidade da Califórnia, em uma máquina de escrever alugada. O seu objetivo era mostrar o seu amor por livros e bibliotecas, e frequentemente se refere a Montag como uma alusão a ele mesmo.