Falar sobre maconha não é fácil, pois para debater o assunto, que ainda é tabu, preciso conhecer muito mais sobre o que a erva é capaz de fazer com o nosso organismo. Visando quebrar barreiras, a Marcha da Maconha, que aconteceu no dia 14 de maio na Avenida Paulista, em São Paulo, os manifestantes levaram questões mais complexas que envolvem a erva, como é o caso do uso medicinal.

 

Quando o assunto é a descriminalização, o Brasil está atrás de 30 países. E a criminalização não afeta apenas os usuários convencionais da erva. Pacientes que precisam de canabidiol, remédio feito à base de maconha, têm diversas dores de cabeça com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e até mesmo com a justiça para conseguir importar o medicamento.

 

Joseane Alves, de 32 anos, presidente da Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace), criou a ONG para ajudar famílias que passam pelo mesmo que ela passou com seu filho João, de 6 anos. A organização dá apoio às famílias e pacientes que precisam importar esse remédio, além de realizar pesquisar com os pacientes que o utilizam. Confira um bate-papo com Joseane.

 

 

Coisas de Jornalista: O que é a Abrace?

Joseane Alves: Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança, uma associação que busca pesquisar, representar e dar apoio a mães e pais de pacientes que precisam do tratamento com o CBD, produto à base de Canabidiol.

 

CDJ: Como começou essa ONG ? Ela tem a sua participação desde o início ?

JA: Desde o começo desse movimento, eu e Cassiano começamos a ajudar os que chegavam e ajudamos muitos novos casos a conseguir o CBD importado. Foi então quando decidimos instituir uma Associação para nos blindar da pessoalidade das ações. Já não era mais eu e Cassiano, mas uma pessoa jurídica instalada com objetivos específicos.

 

CDJ: Pode contar um pouco da sua história pessoal em relação ao uso medicinal de maconha?

JA: Meu filho João nasceu de um parto complicado. O seis primeiros meses de vida tudo correu bem, ate que ele começou apresentar crises parcial de difícil controle. Com os anos, as crises foram aumentando de uma a duas vezes por semana, para até 70 vezes em um só dia. João, aos 5 anos, já estava bem debilitado, mal falava e andava, só dormia muito, devido às medicação internações. Percebemos que se nós não tivéssemos uma alternativa ele não chegaria até os 6 anos. Foi então depois de muita luta e muitos exames que descobrimos a milagrosa planta maconha. Desde então, João voltou a andar, falar e brincar como uma criança de sua idade que sonha em corre e jogar bola. Isso é muito gratificante para mim que sou mãe de um usuário da cannabis.

 

CDJ: Quantas famílias recebem ajuda de vocês ?

JA: Hoje já passaram mais de 1.000 pacientes assistidos pela ONG, mas o resultado do esforço da equipe para que a Anvisa liberar, bem como ações na justiça, afetaram praticamente a todos, abrindo as portas para o tratamento.

 

CDJ: Só o CBD recebido internacionalmente através da Anvisa é suficiente para a demanda de pacientes?

JA: Não é suficiente e não tem data de fabricação nem prova de eficácia, ficamos sem saber se funciona. Muitos pacientes reclamam que a primeira funciona, mas a segunda e terceira compra não faz o mesmo efeito. Como nossos filhos são pacientes e não clientes, acho que precisamos de outra saída, que será fabricar nós mesmos.

 

CDJ: Quais são as alternativas que algumas famílias recorrem na obtenção do CDB?

JA: Só tem duas saídas; comprar ou você mesmo fabricar. Porque ações na justiça não têm garantia, já que o fornecimento é muito instável. Eu já testei as três opções e a única que é segura para mim é a de nós mesmo produzir o óleo.

 

CDJ: Vocês dão apoio jurídico para pacientes que acabam tendo problema com a justiça?

JA: Não, apenas damos apoio jurídico para quem quer ter o tratamento. Primeiro pedindo ao estado o fornecimento, e, em caso de falha do Estado, orientamos ações de cultivo, como é o meu caso, pois já estamos aguardando o pedido que fizemos de cultivo. Já que o Estado vem falhando com o fornecimento e meu filho não pode esperar, a gente resolveu produzir.

 

CDJ: Na sua opinião o que tem impedido a legalização no Brasil?

JA: A ignorância. São muitos anos de proibição e fizeram da planta um bicho de sete cabeças. Só que ela não é, pois ela tem sido usada há mais de 5 mil anos e 100 anos de proibição não diz nada. Alem disso todos os países estão legalizando é uma tendência mundial.

 

CDJ: Estamos próximos de uma legalização no mínimo medicinal da maconha?

JA: A legalização no Brasil vai ser primeiro judicial. Já está sendo com a liminar do MPF-DF que obrigou a ANVISA liberar o THC, mas infelizmente eles apenas liberaram a importação . Por isso quero o direito de cultivo, pois ai abre as portas para outros pedirem e podemos assim nos mesmo resolver o nosso problema da forma mais barata , mais conveniente e segura.

 

CDJ: Vocês fornecem o óleo de CDB para os pacientes ?

JA: Não forneceremos, mas estamos em conjunto com uma universidade fazendo alguns testes em um grupo monitorado. Mas nosso objetivo é um dia conseguir fabricar para nossos associados.

 

A ABRACE

A organização sem fins lucrativos tem como objetivos principais o apoio às famílias que precisam de um tratamento com a Cannabis Medicinal, além de realizar pesquisas que utilizam este medicamento como alternativa aos tratamentos convencionais. Pessoas com enfermidades que já passaram por todas as terapias modernas e não obtiveram sucesso podem se associar à ONG, onde terá apoio jurídico e médico, além de suporte para a importação do medicamento.