Ódio e raiva. São esses sentimentos que a menção do nome João Havelange desperta nas pessoas. O primeiro presidente brasileiro da Fifa (24 anos no poder e hoje presidente de honra) sempre teve seu nome ligado aos esportes. Sem ele, hoje o futebol não teria o prestígio mundial que tem. Isso, claro, rendeu homenagens, incluindo um estádio com seu nome. O problema é que tudo vem com um preço – cifras que os jornais não param de divulgar desde que o Departamento de Investigação dos Estados Unidos abriu um inquérito na Fifa.

Mas, antes do escândalo estourar, um jornalista resolveu contar a história dessa figura mítica João Havelange. Ernesto Rodrigues já era familiarizado com biografias. Em 2004, o autor lançou o “Ayrton – O Herói Revelado”. Mesmo assim, ficou receoso quando surgiu o convite, afinal “durante quase trinta anos, aprendeu, como jornalista, a desconfiar da importância de João Havelange” – frase na contracapa do livro. Aceitou o desafio e começou a escrever sua segunda obra, Jogo Duro – A História de João Havelange. Gol para os apaixonados pela história do futebol.

Durante um ano e meio, Rodrigues mergulhou na vida dos Havelanges, mas não antes de levantar todo o tipo de informação sobre o seu “alvo”. Foram 24 livros, 97 sites e 45 jornais e revistas de 12 países pesquisados. Com a ajuda da jornalista Carolina Lauriano, o autor conseguiu contatar 170 personagens e fontes do Brasil, Espanha, Argentina, Inglaterra, Alemanha, China, entre outros. O resultado? 114 entrevistas, nem todas citadas nominalmente na obra, mas a maioria realizada em contatos pessoais, da mesma forma que Havelange costumava fazer os seus negócios. Jogo Duro é, antes de tudo, um exemplo impecável de apuração e levantamento de informações.

O livro vai desde muito antes de Havelange assumir o cargo na Fifa, traçando um breve histórico da família. Passa por uma das grandes paixões do biografado, a natação. Foi através desse esporte que o biografado teve contato com o primeiro de seus grandes eventos: As olimpíadas de Berlim, em 1939, como nadador da equipe brasileira. Foi nessa viagem que ele também começou a aprender sobre o vespeiro político que, anos mais tarde, seria o seu tabuleiro. Por causa de uma disputa entre a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), o Brasil mandou duas delegações a Olimpíada. Havelante e sua equipe, que foram enviados pelo COB, foram recebidos oficialmente pelos organizadores alemães; já a outra entidade ficou esperando na estação de trem uma recepção que até hoje não veio.

O que mais chama a atenção é a concorrência para a Presidência da Fifa, que era dominada por uma panelinha europeia. Naquela época, o voto inglês valia quatro (o da Inglaterra somado aos da Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales) e a federação inglesa tinha o direito de não pagar a anuidade – o que gerava grande antipatia de outras federações, que não tinham como pagar essa taxa e, por isso, não podiam votar nem disputar competições internacionais. Essa desigualdade foi o foco da campanha do brasileiro, que prometeu um equilíbrio de forças no futebol. Por isso que, até hoje, os países africanos tem uma grande dívida e se mantém fiéis aos sucessores de Havelange.

A obra é tão rica em detalhes que fica até difícil fazer um apanhado dos tópicos. O livro aborda a relação de Havelange com a mídia (era um ódio mútuo, com preconceito de ambos os lados), como a questão da família era importante e, principalmente, a relação do biografado com o seu ex-genro, Ricardo Teixeira, que é o principal “alvo” do livro O Lado Sujo do Futebol, que já falamos aqui.

Mas nem tudo é perfeito. Antes de começar a escrever, Rodrigues fez um acordo de deixar Havelange ler o livro conforme ele ia sendo escrito. O biografado tinha o direito de sugerir alterações e o biógrafo podia muito bem aceitar ou não essas alterações. Só que Havelange não gostou do resultado final, que trouxe assuntos que ele preferia não terem sido comentados, e retirou a sua autorização para que o livro fosse publicado. A editora Objetiva, que havia assinado o contrato com Rodrigues, desistiu da biografia e por pouco o livro não ficou só no projeto. Foi essa atitude que motivou o jornalista a lançar o documentário “Conversas com JH”, mostrando o processo por trás da realização de uma biografia, os muitos conflitos e obstáculos enfrentados por aqueles que lidam com a apropriação da história de uma outra pessoa e como ela vê a si mesma no mundo.

É importante ressaltar que o livro foi lançado antes das acusações contra Havelange se provarem verdadeiras. Nos últimos capítulos, a saída de JH da Fifa é tratada como uma decisão dele mesmo, depois de chegar à conclusão que “a entidade já não estava a mesma”. Ernesto Rodrigues preferiu não colocar as acusações pois, na época, não passavam de boatos e ele não queria publicar nada sem algum tipo de confirmação do fato.

Jogo Duro é um livro maravilhoso, que envolve o leitor e ajuda a ver muito além do mito que é João Havelange. Não o trata como o herói nem como monstro, apenas como um homem que ajudou e muito o futebol – mas, como já foi dito, tudo tem um preço. A obra ajuda a entender como essas cifras começaram a ser calculadas.