Intolerância, estereotipação, preconceito. Embora o Brasil se trate de um país miscigenado e, ainda mais, onde tudo parece ser permitido, estes três termos entraram em total evidência no que diz respeito à cada vez mais evidente luta de longa data travada pelo movimento LGBT contra o preconceito. Depois de um período decisivo de grandes acontecimentos, como a irrisória proposta de “cura-gay” do deputado federal Marco Feliciano, ou ainda, de grandes conquistas como a crescente onda de liberação do casamento igualitário – a última delas nos EUA, há quase um mês – o ódio ainda figura como o maior desafio dessa “minoria” e a aparente aceitação, gritada aos quatro cantos, é frequentemente questionada.

Importante aliada do jornalismo e promotora de olhares diversificados do mundo, a fotografia também fala e por isso mesmo, nunca foi tão aliada – e também queridinha – das massas. Diariamente expõe-se a necessidade de um olhar sincero, crítico e profundo de quem fotografa, convertendo o exercício de registrar aquele momento como algo que vai além de uma boa câmera e uma temática interessante a ser abordada. Pensando nisso, um grupo de estudantes da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) deu vida a uma iniciativa pra lá de curiosa que usa essa linguagem a favor de uma boa causa.

Com rápida repercussão nas redes sociais e nos principais veículos de informação, o ensaio intitulado de “Sexualidade e Ignorância” bateu de frente a uma discussão bastante intrincada, originada por uma cultura errônea que fere sem dó, e a curto prazo não deve deixar de figurar o cenário social. Frente a isso e no intuito de chamar a atenção para este que se converte a cada dia um problema mais grave, os organizadores procuraram pessoas aleatórias nas ruas de São Paulo que pudessem relatar através de frases escritas em um cartaz marcas e ataques que revelassem algum tipo de violência sofrida.

Mais intenso e longínquo do que qualquer tipo de militância – o que parece impossível de atingir em tempos de “guerra” como agora – o resultado foi uma galeria fantástica recheada de fotos, todavia sistemáticas, que revelam também pelas expressões faciais de quem foi fotografado, o quão grande ainda é o discurso de ódio e intolerância da sociedade, mas acima de tudo, as dimensões do desafio de vencer a intolerância e a estereotipação.

O poder das lentes Como ensaios fotográficos chamam a atenção para o engajamento social (2)

Precursores

O ensaio, inspirado nos projetos “Ah, branco, dá um tempo” – manifestação dos alunos da Universidade de Brasília (UnB) contra o racismo – e #EuTeOuviDizer, que trata da homofobia na fala das pessoas, produzido pela fotógrafa Sabrina Marthendal, levanta a questão dessa necessidade de usar a fotografia como arma de conscientização ou ainda, como publicidade de determinadas causas. Atitude semelhante fez sucesso em Portugal, com a divulgação do projeto “Sempre Quis Ser”.

De autoria de Catarina Fernandes e João Porfírio, ambos com 19 anos de idade e estudantes de jornalismo, o ensaio, que chegou a ser exposto em um dos grandes shoppings centers da capital portuguesa, impressiona pela simplicidade e impacta ao focar os efeitos da desigualdade, expressos em placas que contam apenas com a escrita de sonhos profissionais frustrados.

Para ver o ensaio “Sexualidade e Ignorância” na íntegra, clique aqui.