Ao ingressar na faculdade de jornalismo, certamente o aluno tem, além de uma costumeira sede de “fazer o seu lugar ao sol” e se tornar um bom profissional, uma grande inspiração. Seja aquele jornalista que aparece todos os dias no noticiário, ou ainda, aquele grande colunista que figura com frequência as páginas do bom e velho impresso. Precursor do realismo mágico e um dos maiores nomes da literatura de língua espanhola, a figura de Gabriel García Marquez, além de ser constantemente associada ao mito, encaixa-se perfeitamente nessa situação.

GGM dedicou uma vida ao jornalismo e sem dúvida revolucionou a forma de exercer o ofício. Frente ao lançamento de um documentário que tem causado altos “burburinhos” (Gabo, La Magia de lo Real, dirigido por Justin Webster) e pouco mais de dois ano após sua morte, ainda há quem se pergunte o porquê de seu nome ser tão influente no cenário.

Dasso Saldívar, um de seus biógrafos oficiais, revelou em recente entrevista que, de fato, o vencedor do Nobel de Literatura e autor de ‘O amor nos tempos do cólera‘, ‘Ninguém escreve ao coronel‘ e do clássico ‘Cem anos de solidão‘, foi por muitos anos, o “mais lido e mais conhecido escritor latino-americano, embora ninguém conhecesse bem os caminhos que levaram até ali”.

Justamente por isso, listamos sete razões que, se ainda não, te farão amar o gênio colombiano e, consequentemente, sua obra:

Seis razões para amar Gabriel García Márquez e sua obra (1)

1. Criatividade inesgotável

Apesar de assumir um bloqueio criativo em seus últimos anos de vida, Gabo, que era neto de contadores de história, teve uma carreira intensa entre o jornalismo e a literatura. Porém, para lograr tal mérito e conciliar tão bem duas carreiras “espinhosas”, foi preciso uma grande criatividade e versatilidade em tudo o que escrevia. Por traz disso, enveredava-se uma longa bagagem cultural, inerente a qualquer bom jornalista. Em suma, quando se tornou repórter, aprendeu a criar em cima de qualquer coisa, até mesmo de fatos cotidianos. Em seus livros é possível encontrar desde sátiras políticas – como em ‘O outono do patriarca’, inspirado no general Franco, da Espanha – tramas arruinadas pela intolerância religiosa, como na novela ‘Do amor e outros demônios’ – e até mesmo, as aventuras amorosas de um idoso – seu último livro publicado em vida, ‘Memória de minhas putas tristes’.

2. Ativismo

García Marquez era gente como a gente. Criticado por sua amizade com o líder cubano Fidel Castro – a qual declarou anos mais tarde ser “uma amizade literária” – e chegando a ser perseguido pela CIA quando exercia o cargo de correspondente em Nova York, Gabo teve uma estrita relação com a política. Livros como ‘O outono do Patriarca’ e ‘A aventura de Miguel Littín; Clandestino no Chile’ são claros exemplos da influência desse campo em sua obra. Ao longo dos anos, tornou-se crítico e não preservou-se à margem de assuntos delicados na maior parte do tempo. Como comentarista e cronista, era comedido por uma militância que despontava e hoje é tão comum. Provavelmente, se vivesse hoje seus inícios como jornalista, publicaria nas redes sociais com fervor o famoso “textão”.

Seis razões para amar Gabriel García Márquez e sua obra (2)

3. Incentivo

A observar sua bela trajetória, fica claro: o colombiano só chegou onde chegou pois como é de praxe, só quem faz a diferença é capaz de se destacar. Sua proeminência, entretanto, não se restringe somente a seu incontestável nível de engenhosidade, como também ao incentivo à formação de novos e bons jornalistas. O autor deixou além de um grande legado, a Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, instituição sem fins lucrativos que além de auxiliar na formação de jornalistas e em uma série de estudos da comunicação,
trabalha em busca da excelência do jornalismo e em sua contribuição quanto a processos democráticos e de desenvolvimento em países ibero-americanos e do Caribe.

 

4. Personalidade forte

Assim como uma série de grandes ídolos, García Marquez possuía uma forte personalidade. Poses obscenas para os fotógrafos, frases escrachadas e um derrame constante de inteligência e ceticismo em entrevistas eram comuns. Características surpreendentes que construiram não só o perfil ímpar de um gênio, como também de uma figura irreverente.

Seis razões para amar Gabriel García Márquez e sua obra (1)

5. América Latina

Certa vez, Gabo disse que “o difícil não era inventar histórias. Difícil era fazer um americano, um europeu acreditar na realidade de qualquer país da América Latina“. Em sua vida, nutriu um grande amor pelo lugar onde nasceu e viveu grande parte de sua vida. Diferente de uma tendência americanizada que surgiu no fim da década de 1960 e ainda deixa resquícios até hoje no mercado literário, Estados Unidos e Europa não eram o grande foco do autor que seguiu uma corrente contrária. Márquez conhecia seu berço como a palma de sua mão e chegou a definir a América Latina como uma “fonte de criatividade insaciável, cheia de tristeza e beleza“, levando-a para o mundo. Tornou o tema “figurinha carimbada” em seu itinerário literário e traçou um paradoxo onde coexistem problemas e encantamentos. Seus livros sem dúvida imprimem uma série de retratos do lugar sob novas perspectivas, carregadas de sinceridade e intimidade e chamam a atenção para um lugar com imensos atrativos, ainda que por vezes esquecido.

6. Amor pela profissão

O discurso mais conhecido do colombiano certamente foi o proferido na 52ª Assembleia da Sociedad Interamaricana de Prensa (SIP), em 1996, onde disse que junto a seus colegas, no início da carreira, costumava definir o jornalismo como “a melhor profissão do mundo“. Frente a isso, em mais de 50 anos dedicados à profissão, a maior e mais bela mensagem que Gabo poderia nos deixar é: ame o que faz. Empenhe-se e viaje, ainda que apenas na literatura, sem sair de casa.