“Se eu tiver um filho viado, eu amarro no poste e mato!”, foi essa frase que “João”, personagem que conduz o web documentário “Meu armário não tem chave”, ouviu do próprio pai há alguns anos. Frases como essas e outras agressões verbais são comumente ouvidas por diversos jovens homossexuais e, para retratar a realidade da grande parte do público LGBT, o WebDoc retrata a vida de João e outros seis personagens de diferentes estilos, condições sociais e realidades de vida, sensibiliza para o assunto que, ainda em pleno século XXI, é um tabu social.

Produzido e dirigido pelo jornalista recém-formado Dérick Caitano, o documentário de 32 minutos traz como tema principal “o que leva as pessoas a saírem do armário, ou não, e quais são as implicações disso”. É este fio condutor que direciona as entrevistas e histórias dos personagens. O título do projeto já mostra seu principal objetivo e busca compreender as situações em que as pessoas se encontram, trazendo assim a reflexão sobre as consequências de assumir a sexualidade.

Segundo dados do IBGE, o Brasil possui ao menos 60 mil casais homo afetivos. Ainda assim, o preconceito é um mal recorrente e o risco ao se assumir assombra quem pretende sair do armário. Pesquisas recentes, feitas pelo Censo GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), constataram que no Brasil acontece uma morte homossexual a cada 26 horas e que homens gays, lideram essa estatística. Desde 1995 com o projeto de lei nº 1151, iniciou-se a luta pela união civil. Em maio de 2011, o STF (Supremo Tribunal Federal) reconheceu a união homo afetiva como entidade familiar.

Por conta disso, o WebDoc deixa em aberto a questão da “necessidade de sair do armário”. Será realmente algo que deve ser feito por todos os homossexuais, ou será essa uma escolha individual que deve ser analisada de acordo com a situação social em que vive o indivíduo? Além dos depoimentos das fontes principais o diretor traz frases e vídeos que conversam com a narrativa e que – talvez – justifiquem a necessidade da existência do web documentário.
Visualmente o material é cercado por referências famosas, como as escolhas estéticas para entrevistas, enquadramentos e liberdade com a fonte, usadas por Eduardo Coutinho, em “Edifício Master”. Todo o projeto foi estudado sob a ótica da sensibilidade da fonte, deixando-a sempre a vontade para responder as questões de acordo com o seu interesse pessoal. O web documentário permite que o espectador tire suas conclusões sobre o que está sendo exibido. Permite que ele produza o sentido sobre o que vê e escuta. Consuelo Lins afirma em, “O documentário de Eduardo Coutinho”, que o espectador é responsável por construir o retrato do personagem.

Como superar os limites da nossa “natureza” e entrar na “natureza” alheia? Como lidar com a imagem do outro, quando esse outro é um personagem cuja visão de mundo, não compartilhamos? (LINS, 2004)
A autora do livro relata bem o foco e a ideia que o “Meu armário não tem chave” traz em sua produção narrativa. Tentar imergir na natureza do outro, conhecer suas histórias, relatos, marcas e vivências pode ser crucial para que a informação seja passada de forma mais transparente possível.

Embora, seja necessário “Filmar sem forçar o traço, sem caricaturar, intervindo o menos possível” (LINS, 2004). A opção para o web documentário foi aliviar a tensão das fontes e quebrar essa formação inconsciente de um personagem em frente a câmera, através da realização de conversas prévias que permitiram o desvendar dos mais profundos acontecimentos históricos vividos por cada um dos personagens, escolhidos para compor o material. A ideia para o web documentário, assim como feito no material de Coutinho, não foi colocar o entrevistado “contra a parede”, pelo contrário, permitiu que ele tivesse confiança o suficiente para informar com segurança seus receios e motivos.

 

FICHA TÉCNICA

Roteiro, direção, produção e imagens: DÉRICK CAITANO

Edição e finalização: DÉRICK CAITANO

Orientação e coordenação do curso de Jornalismo Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL): DANIELA GERMANN

Fontes (por ordem de aparição):

“JOÃO”
ISIS RAFAELI VOGEL
JOEL VIGANO
CRISTIANO FELIPE SIQUEIRA
LUCIANO LUIZ
LEONARDO MENEZES
MATEUS KRASSMANN

Agradecimentos:

PETHYNE LYSTENNROCKBACKS
GIOVANNA PAVAN
DÉBORA LAURINDO